Mostrando postagens com marcador estatua humana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador estatua humana. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de abril de 2012

UM ÁRABE VERSÁTIL

Completamente branco é o mocinho que, na multicor Rua das Flores de Curitiba, tem perfil europeu, mas está fantasiado de árabe. A roupa é branca, as mãos forradas de luvas brancas, a maquiagem da face também. Tem cordão fino na cintura e turbante delgado na cabeça. Com graça, esta enfeita o corpinho de ginete. Fica minutos inteiros rijo, completamente imóvel. Não fosse o vento que teima em tremular o lençol nas suas costas, a ilusão de estátua de gesso seria perfeita.


Mesmo se trepado na caixa-pedestal com a qual faz um corpo só, graças aos panos que os recobrem, o jovem é tão pequeno que quase sempre os passantes o passam também em altura. Rapagões espadaúdos, distraídos, ao topar com a figura, param de supetão, surpresos. Logo, porém, desdenham dela, pra não desdenhar de si, e puxam, pra um lado, as namoradas curiosas demais pro seus gostos. Mas não há brutalidade, afinal há um bom público observando. E nem seria correto neste clima de Natal.


Os admiradores do artista de rua, por sua vez, lançam moedas na latinha posta ali, aos seus pés. Branca, ela também, mas encardida. O dinheiro sempre suja. As crianças são os mais generosos, mas, no tinir da sua doação, há uma gotinha de interesse, ah, pirralhos!
– Tililim!
A estátua recobra vida, com seus ares de robô, começa a mover-se, guinando aos solavancos e retomando, e com gestos pede a mão da dama ou da criança, para beijá-la delicadamente. Logo destrava melhor o molejo e seus ademanes orientais – os salamaleques – nos levam bem pra lá de Bagdá, pois saudar de mãos juntas, inclinando a cabeça, está mais pra Índia, a Calcutá da finada Madre Tereza, mulher de paz, lembram? Mas poucos sabem disso. Aquele beijo cerimonioso, que agradece a gratificação recebida, encanta as crianças que partem lépidas, transfiguradas num sorriso etéreo, quase religioso.


Nem todo pequeno, porém, é corajoso a ponto de se aproximar. Alguns se pelam de medo e não se deixam beijar a mão, por mais que as mães os empurrem e motivem, fazendo-se beijar elas próprias. Não tem jeito! Vai que o branco tão puro esconda ali debaixo algum enfermeiro com vacinas terroristas? Melhor evitar. E não vão mesmo!


Já meninos mais graúdos ou homens, dos quais o autômato igualmente pede a mão e a toma..., de repente esta se vê rejeitada e o dono dela recebe outro tipo de homenagem: um seco bater de calcanhares, a guisa de continência militar. Que coisa! Esta quebra de ritmo e o relativo desconcerto causam risos nos presentes, mas aí a estátua gentil, pisca o olho e faz sinal de positivo, como para desculpar-se com o amigo instantâneo e já cúmplice. Este acaba partindo satisfeito, valorizado na sua masculinidade.


Chega até um bonachão, pai volumoso, suado, atendendo os desejos do filho. Vem e enrosca um globo de gás azul no dedo indicador do árabe que... fica teso! Mas muito mais do que o previsto. Pasmou? E nem houve foto. Enguiçou? Sei lá! Terá sido a ausência até da mais magra contribuição?
– Ah! O globo azul!
Ora, estátua também se surpreende. Inda bem que o gordo fica sem graça e põe fim naquela constrangedora intromissão simbólico-cromática. Que alívio!


Entre os períodos estáticos e os beijos, quando o rio humano do calçadão se detém, entupido com as mil novidades comerciais da temporada, ou simplesmente se afasta dele no variar da correnteza, o rapaz improvisa algumas mímicas. Poucas. Essenciais. Só para chamar a atenção sobre si e a latinha. As mãos hábeis simulam agora pombas alvas que adejam ao seu redor e logo voam até o horizonte. Ele as acompanha com os olhos. Elas se perdem... Aí ele leva a mão direita ao peito inflado, cheio de afeto e efeito.


Ah! Também se faz, vez ou outra, Estátua da Liberdade, mormente quando a criança quer uma foto ao seu lado, usando o celular do pai. Alá, ó, de novo. Clique. Péra lá. Clique. Mas é aí que me vem uma duvidazinha chata. Não, nem discutamos se árabes toleram esculturas, pois alguns, sim. É outra coisa o que me faz cismar. Desde quando árabe sabe de paz e – mesmo sendo uma estátua – quê que ele tem a ver com liberdade? Perguntar não ofende, viu? Sugerir também não. Santa versatilidade a deste tipo, e então?


– É milagre de Natal!


(Antônio Villas, Curitiba 02.12.2006)